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O CADÁVER NA PAREDE, EMBAIXO DA ESCADA

Todos sabem que a ossada está lá. O problema, dizem, é que o esconderijo foi descoberto a partir de uma escuta ilegal.
Foi preciso a ação de furtadores de frango para desnudar  as ilegalidades que Moro cometeu  como juiz, quando  combinava os próximos lances com a acusação enquanto posava de justo


Sou ateu. Não acredito no Divino. Nem por isso deixo de permitir que minhas filhas estudem em  instituição confessional e que sigam, pelo menos enquanto não decidem por si próprias (o que poderão fazer com toda e necessária liberdade garantida pelo lar onde nasceram)  práticas apostólicas romanas.  São católicas como o pai foi um dia até que  optasse, consciente e maduro,  pelo ateísmo. Dizem os cristãos que “Deus escreve certo por linhas tortas”.  Pela lógica dos tementes ao Salvador,  Ele encontraria formas complexas de garantir, lá de cima, a justiça aqui de baixo. As crenças e  crendices  que impregnam o governo que o abrigou depois de ter abandonado a onipotência de Curitiba, parecem estar dando uma lição daquelas  a Doutor Moro, o herói dos fanáticos da tradição,  família e propriedade. Caso seja tão crente quanto seu patrão, o Doutor que já desfilou como Juiz do Santo Ofício  que decidiu dar à constituição nativa o mesmo destino dado pelos borgonheses à Joana D´Arc ,  deve ter percebido que acima de todos,  o Deus que  originalmente deveria proteger o Brasil acima de tudo, resolveu usar uma brochura de linhas  sinuosas para mostrar aos idiotas com quantos vazamentos se faz uma verdade.  Pois os hackers  pegos com a boca , as mãos e os teclados na botija pela Polícia Federal comandada pelo Doutor Moro não são,  como sugeria ele no início dos vazamentos que o deixaram nú quando já  não havia toga onde pudesse enfiar as mãos,  “membros de uma sofisticada conspiração destinada a destruir, pelo alto conhecimento tecnológico , a Operação Lava Jato”. Até o momento, pelo que se vê das apurações iniciais,  os “Hackers do Fim do Mundo” não passam, na verdade, de ladrões de galinha com algum conhecimento técnico, à altura de qualquer adolescente curioso. Sim, o nível dos “articulados”  hackers que invadiram a intimidade celular de Doutor Moro e sua turma de sebastianistas, ao contrário do que sugeriu o próprio ex-juiz durante seu show de  evasivas nos depoimentos ao Congresso, é compatível com os mais “geniais” infantes com espinhas no rosto que passam o dia atrás da tela de um  computador ou smartphone. Como dito pelo próprio coordenador-geral de inteligência da PF,  “o perfil dessas pessoas é relacionado a estelionato eletrônico”. Abre aspas para o delegado: “Estão relacionados a fraudes bancárias eletrônicas praticadas mediante internet banking, engenharia social em contato com possíveis vítimas e fraudes em cartão de crédito e débito”.  Com menos eufemismos, daria, sem muito esforço,  para classificar os Snowdens brasileiros como não mais que criminosos de sarjeta que têm o macete de fraudar incautos. Pois é Doutor Moro; assim como o Deus de seu patrão escreve certo por linhas tortas,  foi preciso a ação de furtadores de frango para desnudar  as ilegalidades que o senhor cometeu  como juiz, quando  combinava os próximos lances com a acusação enquanto posava de justo.  A justiça, a verdadeira,  se encarregará de cuidar dos crimes dos hackers.  É natural e nesse caso justo que assim seja.  Isso, nem de longe, afasta da verdade o fato de que as mensagens reveladas pela invasão hacker mostram um Juiz parcial, que tornou-se sócio da acusação, contaminando o devido processo legal.  Enquanto os fanáticos esfregam as mãos para festejar a “virada” de Moro,  a verdade, inconveniente e imperdoável, permanece gritando pelo socorro do estado democrático de direito. É como um cadáver escondido na parede, debaixo da escada da sala. Todos sabem que a ossada está lá. O problema, dizem, é que o esconderijo foi descoberto a partir de uma escuta ilegal. “Tá cheirando forte querida? Não?! Então não é preciso nem tirar as crianças da sala”, diriam insuspeitos pais de família, tementes a Deus.

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