Sabiam
os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só
ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante. Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e
retretas gabar a infiel : “uma Santa! Uma Santa!”
O mestre Nelson Rodrigues, o Anjo Pornográfico de A Vida Como Ela É, tem lugar cativo na minha biblioteca. Desconfio, e muito, que ainda vai demorar alguns pares de décadas até que apareça sobre a superfície do bananal em que vivemos outro como o autor de Toda Nudez Será Castigada. Nelson não era deste mundo. Não podia ser. Sua inteligência e capacidade em destruir, em uma linha, catedrais inteiras de hipocrisia sempre fascinaram-me. Vivo fosse, Nelson estaria refestalando-se no cortiço em que se transformou o “debate de ideias” no Brasil da direita religiosa ultraconservadora e armamentista. Imagino Nelson, entre uma tragada e outra no cigarro que morava no canto de sua boca, avaliando, em um botequim de subúrbio, a “inteligência” de parte de nossa elite (a mesma recentemente desnudada pelo obra de Jessé de Souza ); sim, aquela que frequenta o asfalto vestida de verde e amarelo para canonizar Sérgio Moro e bater continência para o Capitão (que por sua vez, é claro, bate continência para a bandeira americana). Desconfio que Nelson, já com a piada pronta, sequer precisaria abrir a boca para dizer o que pensa. Sacaria do bolso da calça amarrotada uma lauda datilografada e rigorosamente amassada de um de seus textos mais geniais. Mostraria ele aos interlocutores sempre certos de suas certezas, o texto perturbador:
“Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante. Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — «Uma santa! Uma santa!» Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia, etc., etc. “
Quem apoia a loucura de um governo de radicais sabe o que está avalizando. Pode fingir-se de cego com vestes patriotas. Mas sabe, eis a verdade, sabe. E lá se vai para as ruas, esquinas, botecos e retretas, gabar-se de seus heróis: “são uns Santos! Uns Santos!”
Imagino
Nelson Rodrigues, entre uma tragada e outra
no cigarro que morava no canto de sua boca, avaliando, em um botequim de subúrbio, a “inteligência” de
parte de nossa elite ; sim, aquela que frequenta o asfalto vestida de verde e amarelo
para canonizar Sérgio Moro e bater continência para o Capitão
O mestre Nelson Rodrigues, o Anjo Pornográfico de A Vida Como Ela É, tem lugar cativo na minha biblioteca. Desconfio, e muito, que ainda vai demorar alguns pares de décadas até que apareça sobre a superfície do bananal em que vivemos outro como o autor de Toda Nudez Será Castigada. Nelson não era deste mundo. Não podia ser. Sua inteligência e capacidade em destruir, em uma linha, catedrais inteiras de hipocrisia sempre fascinaram-me. Vivo fosse, Nelson estaria refestalando-se no cortiço em que se transformou o “debate de ideias” no Brasil da direita religiosa ultraconservadora e armamentista. Imagino Nelson, entre uma tragada e outra no cigarro que morava no canto de sua boca, avaliando, em um botequim de subúrbio, a “inteligência” de parte de nossa elite (a mesma recentemente desnudada pelo obra de Jessé de Souza ); sim, aquela que frequenta o asfalto vestida de verde e amarelo para canonizar Sérgio Moro e bater continência para o Capitão (que por sua vez, é claro, bate continência para a bandeira americana). Desconfio que Nelson, já com a piada pronta, sequer precisaria abrir a boca para dizer o que pensa. Sacaria do bolso da calça amarrotada uma lauda datilografada e rigorosamente amassada de um de seus textos mais geniais. Mostraria ele aos interlocutores sempre certos de suas certezas, o texto perturbador:
“Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante. Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — «Uma santa! Uma santa!» Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia, etc., etc. “
Quem apoia a loucura de um governo de radicais sabe o que está avalizando. Pode fingir-se de cego com vestes patriotas. Mas sabe, eis a verdade, sabe. E lá se vai para as ruas, esquinas, botecos e retretas, gabar-se de seus heróis: “são uns Santos! Uns Santos!”

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