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DESCONFIO QUE EU SEJA A ADÚLTERA DE NELSON . SINTO-ME SALVO DO DESEJO QUE APODRECIA EM MIM

“Mas como você pode pensar assim se quase todos com os quais  você convive batem continência para a nova ordem?” 


Capa de Veja desta semana: mesmo os órgãos de imprensa que ajudaram a alavancar o sebastianismo ilegal da Lava-Jato estão se rendendo aos fatos. Enquanto isso, aumenta o ridículo dos fanáticos que  tal qual a mulher honesta de Nelson Rodrigues, são devorados pelos próprios escrúpulos


Inigualável, o  mestre Nelson Rodrigues, uma espécie de Rochefocauld dos Trópicos, ensinava, sem um pingo de cerimônia: “a prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira”. Desconfio, nestes tempos estranhos e obtusos, que eu seja a adúltera de Nelson.  Sinto-me salvo do desejo que apodrecia em mim. Traio, aos sábados, domingos, feriados , à luz do Sol e também à noite (quando quase todos os gatos são pardos)  as expectativas de classe  e casta  da  grande maioria dos que me cercam, incluindo aí alguns amigos e familiares. Enquanto muitos  deles , obrigados a dobrar suas apostas em uma tragédia política,  são devorados pelos próprios escrúpulos, indo ao limite, na “implacável fronteira”;  eu não preciso enlouquecer.  Como também ensinava o Anjo Pornográfico, “a adúltera é mais pura porque está salva do desejo que apodrecia nela”.   É curioso e até mesmo divertido  ver a indignação de alguns de meus “iguais”. “Mas como você pode pensar assim se quase todos com os quais  você convive batem continência para a nova ordem?”  Mais uma vez, coloco Nelson para responder em meu lugar: “a plateia só é respeitosa quando não está a entender nada”. E mesmo porque, também fazendo minhas as palavras do mestre, “não existe família sem adúltera”.

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