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CRÔNICAS DO FIM DO MUNDO: O BURACO

O pior é saber que ao redor do maldito, tudo é beira



Buracos são o que são. Buracos. Simplesmente buracos. Nenhum esforço semântico ou discurso fanático são  capazes de livrá-los da tragédia de sua existência. Buracos têm vida longa. Eles se acreditam, em um exercício esquizofrênico de autoengano, especiais, únicos; até mesmo dignos da atenção de outrem. São tragicômicos. Ridículos em sua autossuficiência. No Buraco, até os cornos são mais infelizes. A fofocas de padaria os assombram. Afinal, no Buraco, todo mundo cuida da vida de todo mundo. Imagine o Alce entrando domingo de manhâ na padaria do “centro” sob os olhares inquisidores dos “puros” que o cercam. Inevitável não rememorar o mestre Nelson Rodrigues, fazendo minhas as suas palavras para explicar como a vida em um Buraco pode ser uma tragédia.  Dizia Nelson: “e o homem de bem, por sua vez, é um cadáver mal informado – não sabe que morreu. E não é só isso. Além disso, tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem”. Como, num Buraco, o traído pode dormir em paz sabendo que todos sabem? Vai passar o resto de sua vida tentando mostrar, ao Buraco, que superou aquilo. O Buraco não lhe dá opção.  Sua única saída é defendê-lo. “Moro no melhor lugar do mundo”. Sei, sei. “Sou feliz com minha escolha”. Tá certo. “O importante é estar satisfeito com o que me cerca”. Claro. O  pior, como já dito por Ariano Suassuana, o dramaturgo e ensaísta paraibano autor do “Auto da Compadecida”;é saber que “ao redor do Buraco, tudo é beira”. Talvez seja por isso que os “ricos” do Buraco não resistam a um par de quilômetros na estrada mais próxima. Suas “fortunas” vão se tornando risíveis à medida que a viagem vagabunda acontece. Qualquer cidadela, comparada ao Buraco, é melhor que o festejado orifício e seus reis. Os Buracos , por óbvio,  têm seus “méritos”. São imbatíveis , por exemplo, no quesito Folclore das Desimportâncias. Dos eventos cafonas para homenagear “destaques da sociedade”, passando pelos aniversários bufantes de 15 nos e chegando  ao noticiário mambembe, tudo parece girar em torno do nada que gosta de ser chamado de tudo. O Buraco, entre outras coisas, é habitado por seres passionais. Consumidos pela angústia da verdade que os atormenta e não pode ser dita, os nativos revoltam-se contra todos aqueles que trazem à superfície a hipocrisia que chamam de “nossa cultura”. Viver em um Buraco é como aceitar, resignado, as obrigações insuportáveis de um Natal em família, quando você, em nome da “Magia do Papai Noel da Coca-Cola”,  precisa  posar de bom moço depois de passar um ano inteiro com a mão no coldre. No fundo, o problema do Buraco não é o silêncio dos inocentes, da gente humilde que vive a vida que lhes é possível. A tragédia está é nos pretensiosos. Aqueles habitantes do Buraco que acreditam na importância de sua “refinada” existência num lugar que é negligenciado pela maioria dos mapas e que luta contra o IBGE em busca de estatísticas populacionais mais generosas  que, teimosas, insistem, como jumentos de queixo duro, em não sair do lugar. Nem tudo está perdido. O streaming, capaz de chegar a qualquer buraco desde que o dito cujo apresente uma internet minimamente decente, pode ajudar. Continua disponível na plataforma Netflix, o filme argentino “O Cidadão Ilustre”. Exibido no Festival de Veneza 2016, onde saiu com o prêmio de melhor ator, o  longa-metragem dirigido pela dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat (O Homem ao Lado) é, ao mesmo tempo, incômodo, instigante e universal. A história começa com o escritor argentino Daniel Mantovani ( Oscar Martinez  em ótima atuação) recebendo a maior de todas as láureas: o Nobel de Literatura. A jornada de Daniel tem início a partir de um convite de sua cidade natal, a pequena Salas, de onde saiu há 40 anos. Por mais que o local seja fonte de inspiração de todos os seus trabalhos, ele possui um profundo desprezo pela região por conta de  suas peculiaridades interioranas, muito distantes do lado cosmopolita da Europa, onde mora. Relutante de início, Daniel acaba por aceitar voltar a Salas para receber o prêmio de “Cidadão Ilustre” , cafonália encontrada com frequência em sociedades remotas. Chegando lá, confirma o que sempre soube de véspera. Seus conterrâneos, quatro décadas depois de sua partida, se consomem em ressentimento e ódio  à sua obra, cujas letras desnudaram a miséria intelectual e a ignorância atávica do lugarejo. Depois de escapar de um atentado durante sua  tragicômica passagem por Salas, o autor, já de volta à Europa,  lança  mais um  romance  inspirado no  universo conservador e tacanho  da terra que o pariu; agora como protagonista. Em determinado trecho da obra,  vaticina,  brilhante, ao se dirigir, ainda em Salas, à plateia que condena a verdade imperdoável de seus textos: “confesso que não me chateia ter opositores que me desprezam com tanta veemência. Apesar da enorme brutalidade dessas ações, sinto uma satisfação íntima, diante da expressão da cidade contra o estabelecido. Ou seja, eu mesmo. Mas vamos ao ponto. Como observador assíduo da comédia humana, sinto que é minha obrigação tentar fazer desse mundo um lugar menos horrível. Sei que é uma batalha perdida, mas não significa que vou deixar de lutar.Continuem assim. Que aqui (em Salas) nunca mude.Continuem sendo uma sociedade hipócrita estupidamente orgulhosa de sua ignorância e brutalidade”.

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