Uma pista para entender como amigos e familiares insuspeitos aderiram ao obscurantismo bolsonarista e festejam a ignorância mesmo montados sobre diplomas de nível superior
Speer, junto dos filhos, durante o apogeu de seu poder como um dos principais membro do alto escalão nazista: ele foi o único, entre os homens de Hitler, íntegro em sua batalha pessoal com a própria consciência
Inútil argumentar com os próprios. Perda de tempo mostrar como as democracias morrem. Inócuo qualquer esforço intelectual no sentido de abrir os olhos de quem você considera próximo e merecedor de sua indulgência cultural. Vã qualquer tentativa, recheada das boas intenções que lotam o inferno, de demovê-los da catarse estúpida da qual se orgulham. Desisti , já há algum tempo. Contra a imunidade cognitiva dos batedores de continência , cultivo algo que poderia ser chamado de desdém invisível. Por vezes me pego em uma roda de conversa quando um entusiasta das estultices dos tempos estranhos em que vivemos não resiste e saca seu brilhante repertório de argumentos com a profundidade de um aquário. O sujeito, geralmente com formação superior, bate no peito e descortina todo seu conhecimento sobre o Brasil e suas necessidades. Quase me convenço de que era ele e não o Capitão que deveria estar lá no comando da tragédia. Ouço, lutando contra o bocejo e fingindo um franzir de testa como se estivesse interessado naqueles minutos de sabedoria. Para não constrangê-lo, prefiro rir por dentro. Sim, prefiro poupá-lo. Até onde sei , abandono de incapaz é crime . Ao invés de me revoltar, me divirto com a ilustrada ignorância do interlocutor cheio de certezas. É a forma que encontrei para proteger minha sanidade mental do hospício da polarização e ainda preservar algumas amizades e laços familiares. O estúpido que se orgulha da própria ignorância é, sobretudo, um ser passional. Se você confrontá-lo com a verdade, ele vai levar para o lado pessoal. Não compensa o latim. Poderia, mas não vou fazer isso, perguntar se a sociologia dos convictos conhece, ainda que de passagem, obras como Raízes do Brasil e o Homem Cordial, ambas de Sérgio Buarque de Holanda. Ou então, O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. Desconfio de que receberia como resposta pronta do seguidor do "Véio da Havan" nas redes sociais de que algo do tipo ou mesmo o Twitter de Olavo Carvalho são suficientes para nutrí-lo de conhecimento. Na eventual falta desses, memes disparados por robôs também serviriam. É a cultura de quem tem preguiça de ler, que detesta “textão” e concorda com as impressões geniais de pensadores de Facebook. Eu poderia, porém também não vou, perguntar ao colega, amigo ou familiar que conhece a constituição tanto quanto o arcabouço completo da física quântica; se, por um acidente de bom senso, ele já passou por algumas páginas de “A Grande Regressão”, obra que reúne ensaios de gente como Zygmunt Bauman, Bruno Latour, Slavoj Zizek e o brasileiro Renato Janine Ribeiro. Antes mesmo de escutar o interlocutor me perguntar “se é de comer”, tentaria explicar. Trata-se de uma antologia preciosa sobre os motivos e as tragédias de estarmos vivendo aqui e lá fora tempos obscurantistas alimentados por demagogos autoritários . Interessados fossem em evitar o próprio ridículo, os entusiastas da nova direita brasileira poderiam, mas sei que não vão, tentar conhecer a história de Albert Speer, arquiteto alemão que se tornou talvez o mais poderoso de todos os camaradas de Hitler e, a partir de 1942, o senhor de toda a economia de guerra nazista. Culto e sofisticado, Speer era uma figura brilhante que aderiu aos encantos de Adolf. Em uma obra colossal – “Albert Speer : Sua Luta com a Verdade” – publicada pela primeira vez em 1995, a escritoria , também alemã, Gitta Sereny , tenta desvendar em 988 páginas (a edição brasileira foi publicada pela Bertrand Brasil em 2001, quando li a obra) como um homem da estatura intelectual de Speer pôde servir a um regime cujos principais líderes eram figuras vulgares, incultas , violentas e ressentidas. Sem respostas prontas ou conclusões definitivas, Sereny mostra que Speer, a quem conheceu em seus últimos anos de vida (o arquiteto escapou da forca em Nuremberg e cumpriu 20 anos de prisão em Spandau, nos arredores de Berlim) foi o único , dentre os homens de Hilter, íntegro em sua batalha pessoal com a própria consciência. O despertar de Speer contra a própria estupidez deu suas primeiras pistas no início de 1945 quando diante de uma Alemanha derrotada, Hitler, pouco antes de se matar, ordenou que seu exército queimasse e destruísse tudo o que americanos (a oeste) e russos (a leste) pudessem encontrar na marcha rumo a Berlim. Foi o que ficou conhecido, entre tantas outras loucuras de Fuhrer, como “política da terra arrasada”. Àquela altura, tomado por seus conflitos internos, Speer desobedeceu Hilter, não cumprindo as ordens. Sua atitude foi fundamental para preservar a infraestrutura mínima da Alemanha derrotada e garantir que a reconstrução pós-guerra pudesse começar a partir de bases preservadas. Confesso que a história de Speer alimenta minha esperança de ver, em algum momento, a maior parte das pessoas que me surpreenderam com seu mergulho na escuridão , recobrando a consciência. O problema é que compará-las com Speer é ser generoso demais com a ignorância atávica. O analfabetismo político e histórico não escolhe diploma. Ricos, brancos e graduados podem ser muito estúpidos. Especialmente quando querem.

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