Ainda durante a
campanha Presidencial de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro, jogando
para sua raivosa plateia, sacou o inacreditável de seu conhecido
repertório tosco. Afirmou, como se comentasse a receita de um suflê, que
os africanos eram culpados pelo tráfico negreiro. “Se você for ver a história
realmente, o português não pisava na África, eram os próprios negros que
entregavam os escravos”, disse o “historiador” Jair durante uma
entrevista à TV Cultura. Com meia dúzia de barbaridades verbalizadas
sem a menor cerimônia, o então futuro Presidente da República passava por cima
de todas as pesquisas historiográficas produzidas sobre o assunto nas últimas
décadas e ignorava, olimpicamente, toda a responsabilidade dos portugueses no
tráfico negreiro entre os séculos 16 e 19. Muito mais além disso,
simplesmente omitiu que a colonização das Américas foi executada,
no arcabuz e na chibata, a partir de um modelo de escravidão
comercial parido da ganância dos europeus. Aquela entrevista, há parcos oito
meses, era o prenúncio do obscurantismo praticado hoje sobre patas
velozes. No Brasil de agora, nas mãos da “nova direita”, o
governo transforma a desonestidade intelectual em política de
estado. Como se não houvesse passado, o estado nega, muito longe do rigor
acadêmico, dos princípios científicos e do ensino responsável da
História, a existência de fatos inquestionáveis como a Ditadura que
mergulhou o Brasil nos porões da tortura e mente descaradamente sobre períodos
mundiais que abriram feridas indeléveis na humanidade, como o Nazismo
nascido do ódio da extrema direita. O ridículo se aprofunda a patas
largas. Sem saber que já caiu, o Ministro da Educação, que conseguiu,
em três meses, transformar o MEC em um hospício; anunciou que
pretende revisar os livros didáticos já que no Brasil “nunca houve uma
ditadura”. Não se sabe onde está a maior demência. No colombiano que faz
hora extra na Esplanada ou em quem lá o mantém. Na
tentativa de agradar aos seus, o Presidente e seu chanceler - aquele que
transformou o Itamaraty num saco de risadas – espalharam a maluquice de que a
Alemanha de Hitler nasceu do ideário de esquerda. Não precisavam recorrer
a Adolf para demonizar a esquerda. Hitler, que era de extrema direita,
matou 6 milhões de judeus . Stalin, que “libertou” Berlim em 1945 e era de
extrema esquerda, dizimou 20 milhões de pessoas durante seus anos de
terror no comando soviético. Antes de assassiná-los ou enviá-los
para a morte nos Gulags – os campos de concentração vermelhos - o camarada
Stalin costumava “reescrever” a história mandando apagar a presença de inimigos
novos em fotos em que apareciam como antigos aliados. Por cá, nosso
camarada de Direita e o séquito messiânico que o acompanha, quer apagar da
memória nacional fatos incontestáveis como os 21 anos em que
vivemos sob uma ditadura que cassou direitos políticos, desapareceu com
opositores, torturou milhares e assassinou outras centenas. Apesar de todos os
seus esforços em manipular a história, Stalin, este sim um
ditador de esquerda; entrou para ela como ele era: um déspota cruel e
sanguinário. Não muito longe dali, Hitler, um ditador louco varrido de
direita, também fez de tudo para contar a história ao seu modo. Terminou
atirando contra a própria têmpora no bunker da Chancelaria do Reich.
Não sem antes exterminar milhões de semitas em campos como Treblinka , Dachau e
Auschwitz. Será lembrado, para sempre, como símbolo universal de
um mal que a história, cumprindo com seu mais nobre papel, jamais
nos deixará esquecer. Na imagem deste artigo, este escriba teimoso, cercado por
algumas das obras mais respeitadas sobre a história do Nazismo . Entre as
quais, os volumes I e II de HITLER, a monumental e definitiva biografia
do ditador, escrita por Joachim Fest, que foi um dos mais
respeitados jornalistas do país bávaro no século XX. Ao final do segundo
volume, à página 847 , Fest faz uma descrição assombrosa do Fuhrer. Que se
abram as aspas. “Apesar de todas as reservas que suscitava, ele
(Hitler) foi encarado durante muito tempo como a verdadeira encarnação do
espírito progressista e do modernismo. Assim como a nossa sensibilidade atual
se impressiona com o seu caráter anacrônico, a maioria de seus
contemporâneos o via como homem de olhos abertos para o futuro. Nos anos 30 e
40 era considerado muito moderno o espetáculo variegado resultante das
sucessivas realizações da técnica e da ideia coletiva da ordem, as proporções
monumentais, as atitudes combativas, a arrogância das massas e aura das
estrelas. Aí se via um reflexo da mentalidade do tempo, e um dos motivos do
êxito do nacional-socialismo (como era chamado o movimento de extrema-direita
de Hitler) se prende justamente ao fato de que soube explorar com imaginação
todos esses elementos. Hitler, sob aquele pano de fundo, aparecia como
anunciador dos novos tempos”. Fecha aspas. Entre os
brasileiros sensatos , sejam eles de direita ou de esquerda (sim, eles
existem), não é preciso passar à página 848 para encontrar terríveis,
assombrosas e inquietantes semelhanças. As democracias começam a morrer quando
impostores, com apoio bovino da população, usam caminhos legais para
legitimar suas loucuras. O não que elegeu Bolsonaro é o sim para um buraco
sobre o qual ainda não descobrimos o tamanho. Delírios tem prazo de validade. O
problema é que podem durar muito antes de apodrecer, comprometendo o presente e
o futuro de gerações.
Moro, um "poço de coerência", considera criminosos os vazamentos que derrubaram sua fantasia sebastianista mas não vê problema e “não se arrepende” em vazar ilegalmente conversa dos outros; no caso, do candidato que ele colocou na cadeia para que o homem que o emprega hoje pudesse vencer as eleições presidenciais Uma república de bananas é feita do que desde sempre se sabe: corrupção, achaques, mentiras, cinismo, populistas a perder de vista, demagogos em escala industrial e uma dose colossal de hipocrisia. Pego com as calças na mão, Doutor Moro, o “herói” que inspira bonecos infláveis e move multidões de fanáticos em nome da tradição, da família e da propriedade, deu de presente à reputação da Lava-Jato uma jamanta carregada de cachos de banana d´água. Não que não se desconfiasse de seus métodos. O que assombra é a desenvoltura com que o hoje ex-juiz os praticava, quando dentro de uma toga, à margem da lei e dos...

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