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O DIA QUE DUROU 21 ANOS

Como é possível encontrar pessoas que, galopando a própria ignorância, encontram uma forma de apoiar um regime que torturou, matou e desapareceu com milhares de brasileiros?


É possível porque para as tais, essa discussão bizarra é mais uma maneira de evitar assumir que o presidente que elegeram e por quem bradaram (especialmente nas redes sociais) juras de infinito amor é um homem médio, despreparado, eivado de preconceitos, autoritário e que não sabe governar. Dar o braço a torcer é uma tarefa especialmente difícil para aqueles cujo aparato intelectual resume-se ao consumo diário das tolices das bolhas em que vivem e nas quais  desfilam suas certezas. No Brasil de Jair ,  para dizer a verdade  é preciso estar disposto a pagar o preço da fúria dos idiotas, dos raters , das milícias digitais e afins e até mesmo de familiares e amigos tragados pelos buracos negros de suas limitações cognitivas.  Quem apoia o Golpe de 64 porque o “Mito” (é ou não é risível?) decidiu mudar a narrativa de um dos períodos mais violentos de nossa história é da mesma cepa  de brasileiros “esclarecidos” que não se importam em ver o Ministério da Educação transformado em uma gafieira. Quem comemora o 31 de Março, data em que os torturadores chegaram ao poder, frequenta as mesmas rodas que não se incomodam em ver o Ministério das Relações Exteriores sob o comando de uma comédia de paletó e gravata que, tal qual o patrão, tenta mudar narrativas, ligando (sic)  o nazismo à esquerda. Quem festeja os Anos de Chumbo da  Ditadura Militar é habituè das festinhas onde sequer se comenta as esquisitices de uma  Ministra da Mulher , da Família e dos Direitos Humanos  que declara com o pé nas costas e um olho na goiabeira, que o “padrão ideal de sociedade é a mulher em casa, na rede,  e o marido trabalhando”. Só por via das dúvidas , os apoiadores de governo tão luminar  quanto este que “joga luz sobre nossos dias” poderiam, com ajuda do  know how do Doutor Moro – aquele que descobriu com três meses de Esplanada que manda muito pouco depois de, no emprego antigo, ter mandado além da conta – investigar as certidões de nascimento de Vélez, Araújo e Damares. Dizem as boas línguas que, a despeito do primeiro ser declarado colombiano, não são pequenas as chances dos três sábios serem, na verdade, gêmeos separados na maternidade por algum petista cruel.



Há um inegável cinismo irresponsável em quem apoia as maluquices de um Presidente eleito por 57 milhões de brasileiros (há outros 150 milhões que aqui habitam e não votaram)  e que governa para suas hordas de seguidores radicais na internet esquecendo ou, o que é pior, investindo em um caos que  afeta toda a sociedade . Nessa atmosfera, começam a ganhar corpo especulações cada vez mais plausíveis de que Bolsonaro investe na cizânia para angariar poder absoluto. A estratégia, de altíssimo risco, é conhecida e difundida , de longa data, por líderes com devaneios autocratas. “Não negocio com ninguém. É assim que sou”. O último que tentou algo parecido  no país foi Jânio. Renunciou esperando que voltaria ao poder nos braços do povo. Ao deixar Brasília não foi sequer reconhecido nos pedágios por onde passou. Não sem antes, com sua atitude irresponsável, deixar em gestação o ovo da serpente que eclodiria em 64. 



31 de Março  durou 21 anos. Período no qual liberdades foram sequestradas, pessoas  perseguidas e mortas e milhares simplesmente desapareceram. Entre as imagens  deste artigo, ainda em sua cela, o  cadáver de Vladimir Herzog, ou simplesmente Vlado, jornalista “suicidado” pela ditadura nos porões da repressão e  que tornou-se símbolo da luta contra o autoritarismo. Comemorar o quê?

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