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O DEDO NOSSO NO GATILHO DE CADA DIA

O culto às armas, uma Presidência vulgar e o cinismo irresponsável de quem fecha os olhos e tapa o nariz para carnificinas que contam com estímulo institucional


O nosso dedo está lá. O seu dedo está lá. O dedo de muita gente que você conhece e até mesmo ama também está lá. Estatisticamente é muito provável que você tenha colaborado, com o dedo,  para que milhões de outros dedos sustentem, nas urnas, nos teclados e nos gatilhos , o Brasil assombroso que se apresenta, impávido colosso, diante de todos nós.  É o dedo nosso no gatilho de cada dia. As trevas em que mergulhamos em nome de dias melhores são uma mistura horrenda de culto às armas, milícias amigas, uma Presidência vulgar e  o cinismo  de quem fecha os olhos e tapa o nariz para carnificinas que contam com estímulo institucional. No mar de ódio, pode tudo. Afinal, precisamos aprovar a reforma da previdência e tornar, como diria o palhaço loiro do hemisfério norte,  “o país grande de novo”. O pretexto de madames, brasileiros médios e expoentes da direita xucra (não me refiro às boas e poucas cabeças que a habitam mas ao grosso da manada) é quase sempre o mesmo. “Quebraram o país e assaltaram a nação; era preciso escolher alguém que limpasse essa sujeira toda”. Estamos vendo. Queiroz e a rachadinha? “Melhor fazermos vista grossa”. Jesus na goiabeira? “Foi apenas uma figura de linguagem.” Ódio  à  China pelo chanceler abilolado? “Quem precisa dela?” Transferência da embaixada para Tel-Aviv? “O Trump fez a mesma coisa; vamos em frente;  que se lasquem os exportadores de proteína animal”. A influência do ex-astrólogo (que se intitula filósofo) da Virgínia no Mistério da Educação?  “O cara é inteligente” (só faltou combinar com a intelectualidade brasileira, que, por motivos óbvios, o ignora).  A “ordem” do MEC – e depois o recuo – para que nossos filhos se transformassem em soldadinhos da causa conservadora, integrantes do coral da Pátria, tudo devidamente registrado em vídeo? “Que mal poderia fazer às crianças?” A influência nefasta da filharada do presidente nas posições públicas do papai chefe da nação? “Coisas de família; acontece pô!”. A guilhotina louca do Ministério da Educação e suas demissões em escala industrial a cada tuíte de Tio Olavo? “São apenas ajustes no organograma da pasta”. Mineração em terra de índio? “Qual o problema? São todos uns vagabundos; é preciso tornar isso aí produtivo”. O todo-poderoso ex-Juíz do Santo Ofício, agora ministro da honra e da glória , convidando  e depois desconvidando, feito um franguinho assustado diante das pressões das redes sociais,  Ilona Szabó; uma das únicas chances que o governo teria de uma voz interna discordante?  “Tratou-se apenas de um ajuste; minha autonomia (sic) permanece intocada”. A censura à educação sexual  nas cartilhas da Saúde pública? “Quem tem de falar sobre isso aí sãos os pais”.  O vale-tudo dos agrotóxicos liberados? “Precisamos tornar nossa agricultura mais eficiente ainda”.  A flexibilização, por decreto presidencial, da posse de armas e o anúncio, inacreditável, de que   a liberação do porte vem aí? “O cidadão de bem precisa (sic) estar protegido”. O Presidente da República e toda sua  conhecida elegância, usar um episódio isolado para vender ao mundo, em seu perfil pessoal, com imagens grotescas, que a maior festa popular do país é uma Sodoma e Gomorra dos Trópicos e,  na sequência, com a inocência de sempre, no mesmo perfil, perguntar o que é Golden Shower? “É isso mesmo, palmas! Vulgaridade e desonestidade intelectual são só para os fortes”. Na mesma semana do Massacre de Suzano, o presidente afirmar que tem o costume de dormir com um revólver na cabeceira da cama? “Viva Charlton Heston ”. Por fim, um  deputado da base aliada do presidente afirmar, com a sabedoria de um Gandhi, que se na escola de Suzano, os professores estivessem armados, a tragédia não teria acontecido? “Ele está certo, corretíssimo. Professor estudou para empunhar uma .40 ou no mínimo um 38. Porte de livro é coisa de viado”.
           No fundo, bem lá na fundo,   o apoio à barbárie, ao culto às armas e à vulgaridade não está na postura previsível do brasileiro médio. Ao seu lado, este tem a ignorância, a falta de oportunidades e a baixa escolaridade como catalisadores de sua estupidez, o que o torna presa fácil para desfilar, tolo e feliz,  como poderoso instrumento de manipulação de massa. O problema e a vergonha inadmitida está no cinismo interessado de quem, desde sempre, teve todo o aparato econômico, financeiro e social para opor-se a governos autoritários, cerceadores das liberdades individuais e apologistas da violência; mas prefere, de forma calculada, festejar o “Brasil Novo”. São os liberais do oportunismo,  preocupados com o futuro do próprio bolso e do distinto umbigo. Bons pais, dedicadas esposas , homens e mulheres “de bem” e bons amigos  que preferem permanecer com a mão no coldre ou o  dedo no gatilho. Afinal, no faroeste em que se transformou o país, vence o duelo quem atira melhor.

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