Há algo de canalha e cafajeste que nunca deixou de habitar a Casa Grande enquanto a Senzala sempre se virou como pôde
A classe média, especialmente a alta, é uma instituição brasileira. Das mais cínicas. Os esclarecidos do andar de cima são mais volátes do que álcool 70%. Sua “honra”, sua “glória” e suas “certezas” são mantidas em relativa coerência e perigoso equilíbrio na medida em que seus interesses financeiros são atendidos. Basta que algo comece a ameaçar sua hegemonia de classe para que seus dogmas e preferências políticas evaporem mais rápido do que os salários miseráveis que pagam a seus serviçais. Há algo de canalha e cafajeste que nunca deixou de habitar a Casa Grande enquanto a Senzala sempre se virou como pôde. Pois boa parte dessa gente desfilou de patriota nas ruas do país ao apoiar a eleição do papagaio Jair. Mais do que isso, engrossou as fileiras das hordas de radicais que, em auxílio aos robôs de disparos, declararam amor eterno ao Messias do autoritarismo. Foi assim em 64, durante a Marcha pela Família com Deus e pela Liberdade (sic) , que reuniu, no asfalto, gente bem vestida e com o burro na sombra para apoiar os milicos na “cruzada” contra os comunistas que comiam criancinhas. Foi assim em 18 e 19, durante o apoio cego e estúpido a um candidato despreparado que chegou à Presidência como um trágico acidente da democracia. A “lune de miel” da turma do “Foie Gras” com a ave rara que mora no Alvorada e finge trabalhar no Planalto parece não ter durado sequer um ano e meio. Os panelaços ouvidos por cinco dias seguidos em bairros nobres de diversas capitais, inclusive aqui em Brasília; mostram que os janotas correram às sacadas de seus edifícios de alto padrão para gritar contra aquele para quem,até há poucos meses, juravam devoção beata. É aí que começa a parte saborosa da coisa para quem, na contramão da súcia ensandecida, desde o início alertava para o embuste em meio ao bombardeio “indignado” de amigos e até mesmo de familiares. Não só os peixes morrem pela boca. Fora d’água, os papagaios também padecem do mesmo mal. Não importa se estejam ou não com uma faixa de presidente sobre a plumagem. É divertido acompanhar, em silêncio quase orgásmico, o esforço de conhecidos, amigos e parentes, especialmente nas redes sociais e grupos de whatsapp, em tentar mostrar, com argumentos cada vez mais patéticos, que continuam “certos”, que sua “escolha” sempre foi acertada. Seu número é cada vez menor mas vale pelas acrobacias inacreditáveis. De memes absurdos à reprodução de mentiras escancaradas, vale tudo para não dar o braço a torcer. Mas, o que mais diverte, são os envergonhados. Sinceramente, nestes casos, não resisto a praticar uma espécie de indulgência blasè. Quando encontro um sujeito que já armou barraco para defender o papagaio Jair e hoje mal consegue me olhar nos olhos, não digo nada. Apenas não me contenho a soltar um sorrisinho de canto de boca para lembrá-lo, sem emitir qualquer vocábulo, que no louco Brasil em que vivemos, peixes e papagaios deveriam saber lidar melhor com seus lábios e bicos.
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