Na falta da dignidade em admitir que estamos diante de um governo trágico, o Tio Astolfo, aquele reaça que anda com a cara do Bolsonaro adesivada na caminhonete, prefere atacar os ladrões do PT
Desde o início da campanha eleitoral de 2018, quando começava a ficar claro que parte dos brasileiros embarcaria em uma catarse alimentada pelo orgulho da ignorância; esta coluna, na humildade de seu alcance, alertava para a estupidez vigente. Basta que o leitor, geralmente um preguiçoso que prefere a facilidade de “memes” disparados por robôs do que as verdades inconvenientes que emergem de análises de cenário profundas e independentes, verifique as publicações anteriores deste escriba no blog e também no rol de artigos de meu perfil no LinkedIn. Há, sem um istmo de falsa modéstia, uma coerência premonitória em tudo que escrevi desde então. Nesse contexto, sempre é bom lembrar, que existem basicamente três tipos de apoiadores do inepto que ocupa, por acidente da democracia, a cadeira de Presidente da República: os fanáticos (para os quais não há solução) os robôs de internet (60% de perfis falsos no Twitter, segundo levantamento de empresas especializadas) e os cínicos (o mais saboroso dos grupos em um diapasão que reúne desde nacos de uma elite cara-de-pau a parcelas significativas de uma classe média que deseja voltar a viajar a Miami com dólar decente). Como dito, fanáticos são fanáticos. Para esses, um Presidente que afirma não ver problema na prática de turismo sexual por estrangeiros , “desde que com mulheres”; chamar professores, reitores e pesquisadores de “idiotas úteis”; cortar investimentos em Educação ; defender um aprendizado instrumental (justamente para não incentivar aqueles que pensam, contestam e formam opiniões) e armar o país para um faroeste caboclo; é um orgasmo épico. Sobre os robôs de internet, resta o prazer (sempre silencioso, não é preciso mais do que isso) em observar gente cheia de certeza curtindo, repostando e comentando, orgulhosa que só, posts feitos por algorítimos. Agora, convenhamos, prazer por prazer entre os poucos que tiveram, pública e abertamente, a coragem de não seguir a multidão – como este que vos escreve – está em perceber o desconforto de parte da elite e da classe média, especialmente a alta. Essa gente, como se sabe, se pretende “informada”, “descolada” e até mesmo “letrada”. Assiste a uma série da Netflix (porque tem “nojo” de TV aberta) e já se considera capaz de debater os erros e acertos da monarquia britânica. Ato contínuo, experimente perguntar, durante um desses jantares regados a vinho sul-africano e exibicionismo de adega, ao intelectual de streaming o que ele acha da decisão de Neville Chamberlain em assinar o Acordo de Munique. Cri, Cri, Cri....Os pretensiosos, mesmo quando apanhados com as calças na mão, têm um uma enorme dificuldade em assumir a situação. Preferem agarrar-se a âncoras de isopor para sustentar o ridículo. Dobram as apostas ao som dos violinos que tocam na proa do Titanic. Não importa se o que vem pela frente é um iceberg ou um tsunami. Sim, sim. Este é aquele seu amigo ou mesmo familiar que discutiu com você em defesa do “primeiro a ordem, depois o progresso” e agora não sabe onde colocar o tamanho e a quantidade de asneiras que falou em defesa do “Mito”. Na falta da dignidade em admitir que estamos diante de um governo trágico, o Tio Astolfo, aquele reaça que anda com a cara do Bolsonaro adesivada na caminhonete (quem não tem um tio assim ou conhece um?) prefere atacar os ladrões do PT. Na ausência do mínimo de coerência com a realidade vivida pelo país, a Carminha, aquela sua amiga profissional liberal que mora em condomínio de luxo e desfila em carro importado usado, fala sempre a mesma coisa quando a secretária avisa que o número de clientes está minguando: “a culpa é do quatro dedos presidiário”. No fundo, no fundo, é o tipo de reação que procura esconder, sem sucesso, a vergonha da escolha errada e do discurso besta. Se você prestar atenção já é possível verificar sinais claros de desconforto entre aqueles, próximos de você, que brandiram bandeiras verde e amarelas há poucos meses. O sujeito fala menos,procura não tocar no assunto ou desvia da conversa. Quando olha para você entrega um constrangimento não declarado mas passa recibo com cacoetes indisfarçáveis. Um país com quase 14 milhões de desempregados e economia estagnada, assombrado pela provável volta da recessão, não pode viver de tuítes, histeria ideológica , continências à bandeira americana, aulas de tiro para crianças e sob a influência de um Matusalém astrólogo que se diz filósofo e é chamado de “professor” pelos herdeiros deslumbrados do presidente. O país já teve presidentes despreparados, incapazes de lidar com as exigências do cargo e com os imperativos do sistema republicano. Jânio, Collor, Dilma. Todos eles fracassaram. Não souberam ou não compreenderam, em nenhum momento, que o sistema madisoniano de pesos e contrapesos da política precisa ser respeitado. Em uma República, ninguém governa do jeito que quer. Não dá certo. É preciso governar com amplitude política, paciência e uma capacidade formidável de angariar apoio, inspirar respeito e semear confiança. Falta liderança ao país. Repetir as histórias do Sítio de Atibaia ou do Triplex do Guarujá não vai colocar comida na mesa do brasileiro. Quem conhece Brasília sabe o que corre a boca pequena nos corredores do Congresso Nacional. Por lá, o Mito de 57 milhões de brasileiros é tratado por “Dilmo”. Para os que conhecem melhor os meandros da história nacional, as comparações com Jânio Quadros parecem mais apropriadas. Especialmente pelas analogias ligadas à fraqueza e às limitações cognitivas. “Dilmo” Messias ou “Jânio” Bolsonaro”? Pouco importa. A democracia brasileira, com todas as suas fragilidades e defeitos, elegeu um Presidente que não tem projeto de país. O “Mito” (pode haver algo mais tosco na definição de um mandatário brasileiro?) não dispõe das mínimas habilidades para desempenhar o papel de estadista, tão caro , neste momento, à nação. Se agarra à agenda única da Reforma da Previdência como se a aprovação do projeto fosse, da noite para o dia, acabar com as impressionantes filas de desempregados que se espalham pelo país. Colocaram um bode na sala e insistem em tratar o problema com “Bom Ar” ou, quando muito, com máscaras de poluição. Trata-se, na opinião de quem ocupa o sofá, de uma experiência aromática inesquecível. Estamos vendo e, sobretudo, sentindo. “Dilmo” Messias ou “Jânio” Bolsonaro”?

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